Força e autonomia
Quais medicamentos podem aumentar o risco de quedas em idosos?
Entenda como medicamentos podem contribuir para quedas e como preparar uma revisão segura, sem interromper tratamentos por conta própria.
Alguns medicamentos podem contribuir para quedas por causar sonolência, lentidão de reação, desequilíbrio, confusão, queda da pressão ao levantar ou hipoglicemia. Entre os grupos que mais merecem atenção estão sedativos, alguns antidepressivos e antipsicóticos, opioides, anticonvulsivantes e medicamentos que reduzem a pressão ou têm efeito anticolinérgico.
Isso não significa que todos sejam inadequados ou devam ser suspensos. O risco depende da indicação, da dose, das combinações, de mudanças recentes e das condições clínicas da pessoa. Depois de uma queda, o mais seguro é revisar todo o tratamento e planejar qualquer alteração — nunca interromper medicamentos por conta própria.
Por que um medicamento pode favorecer uma queda?
Uma queda raramente tem uma única causa. Força muscular, equilíbrio, visão, pressão arterial, cognição, ambiente e doenças clínicas podem participar do mesmo episódio. Os medicamentos entram nessa avaliação porque alguns interferem justamente nessas funções.
Os mecanismos mais frequentes incluem:
- sonolência e lentidão de reação: dificultam perceber um obstáculo ou corrigir o corpo após um tropeço;
- desequilíbrio e falta de coordenação: podem tornar a marcha mais instável;
- queda da pressão ao levantar: pode causar tontura, escurecimento da visão ou desmaio;
- confusão e redução da atenção: prejudicam a orientação e a percepção de riscos;
- hipoglicemia: pode provocar fraqueza, suor, tremor, alteração do comportamento ou perda de consciência;
- urgência para urinar: pode levar a deslocamentos rápidos, especialmente à noite.
O efeito costuma ser mais importante após o início de um medicamento, aumento da dose, associação com outro sedativo, doença aguda, desidratação ou mudança da função renal.
Quais grupos de medicamentos merecem atenção?
Calmantes e remédios para dormir
Benzodiazepínicos e alguns hipnóticos podem causar sedação, falhas de memória, redução dos reflexos e desequilíbrio. O risco não desaparece apenas porque o medicamento é de ação mais curta.
O uso contínuo também pode produzir dependência física. Por isso, quando a redução é indicada, geralmente precisa ser planejada e gradual. A suspensão abrupta pode causar ansiedade intensa, insônia, confusão e, em determinadas situações, convulsões.
Antidepressivos e antipsicóticos
Alguns antidepressivos podem causar sonolência, queda da pressão, alterações do equilíbrio ou redução do sódio no sangue. Os antidepressivos mais antigos também podem apresentar efeito anticolinérgico, associado a confusão, visão turva e constipação.
Antipsicóticos podem provocar sedação, hipotensão e sintomas semelhantes aos da doença de Parkinson, como rigidez e lentidão dos movimentos.
Entretanto, depressão, agitação grave e outros transtornos não tratados também podem aumentar riscos. A pergunta correta não é apenas “este remédio está na lista?”, mas se continua indicado, se está ajudando e se existe uma opção mais segura para aquela pessoa.
Opioides e medicamentos usados para dor
Opioides podem causar sonolência, confusão e redução da pressão. O risco tende a ser maior no início do tratamento, após aumento da dose ou quando são combinados com outros medicamentos sedativos.
Alguns anticonvulsivantes e medicamentos utilizados para dor neuropática também podem provocar tontura, visão turva, sonolência ou falta de coordenação. A função renal é relevante porque determinados fármacos podem se acumular quando os rins filtram menos.
Por outro lado, dor intensa não tratada também prejudica a marcha, o sono e a atenção. A revisão deve buscar controle adequado da dor com o menor risco possível, e não apenas retirar analgésicos.
Medicamentos com efeito anticolinérgico
O efeito anticolinérgico pode estar presente em medicamentos para alergia, bexiga, depressão, náusea e outras condições. Quando vários são usados ao mesmo tempo, seus efeitos podem se somar.
Sonolência, confusão, visão turva, boca seca, constipação e retenção urinária são sinais que justificam revisão. Produtos comprados sem receita também precisam entrar na lista, inclusive alguns antialérgicos e medicamentos vendidos para ajudar a dormir.
Medicamentos para pressão e diuréticos
Medicamentos para pressão não devem ser considerados prejudiciais de forma geral. Controlar adequadamente a hipertensão previne acidente vascular cerebral, doença cardíaca e outras complicações.
O problema aparece quando o tratamento produz pressão excessivamente baixa, queda da pressão ao levantar, desidratação, redução excessiva da frequência cardíaca ou alterações dos eletrólitos. Diuréticos também podem aumentar a urgência para urinar e os deslocamentos noturnos.
Depois de uma queda acompanhada de tontura, escurecimento da visão ou sensação de desmaio, pode ser necessário medir a pressão deitada e em pé e rever doses, horários e hidratação.
Medicamentos para diabetes
Insulina e alguns comprimidos para diabetes podem causar hipoglicemia, especialmente quando a pessoa come menos, perde peso, apresenta piora da função renal ou mantém metas de glicose excessivamente rígidas para sua condição.
Uma queda associada a tremor, suor frio, confusão, fraqueza ou jejum prolongado exige investigação dessa possibilidade.
Quanto maior o número de medicamentos, maior o risco?
Usar muitos medicamentos pode aumentar a possibilidade de interações e efeitos somados, mas a quantidade não conta toda a história. Uma pessoa pode precisar de vários tratamentos apropriados, enquanto outra pode ter risco importante com apenas dois medicamentos sedativos.
Mais útil do que contar comprimidos é responder, para cada item:
- Qual é a indicação atual?
- O medicamento está produzindo benefício?
- A dose é compatível com idade, função renal e condição clínica?
- Existe relação temporal com tontura, sonolência ou queda?
- Há duplicidade ou combinação de efeitos?
- É possível ajustar horário, dose ou escolher alternativa mais segura?
Rever medicamentos realmente previne quedas?
A revisão medicamentosa é recomendada como parte da prevenção. Entretanto, simplesmente retirar um medicamento não garante que novas quedas serão evitadas. Estudos de desprescrição isolada não demonstraram redução consistente das quedas em todos os grupos avaliados.
Isso ocorre porque as quedas costumam ser multifatoriais. Além dos medicamentos, pode ser necessário tratar hipotensão, fortalecer músculos, treinar equilíbrio, corrigir problemas de visão, rever o ambiente e investigar causas cardíacas ou neurológicas.
O objetivo da revisão não é usar o menor número possível de medicamentos. É preservar os tratamentos com benefício e reduzir aqueles cujo risco passou a superar esse benefício.
Anticoagulantes aumentam o risco de cair?
Anticoagulantes não necessariamente fazem a pessoa cair. A preocupação principal é que podem aumentar a gravidade de um sangramento depois de um trauma.
Por isso, não devem ser suspensos apenas porque existe risco de queda. A retirada indevida pode aumentar o risco de acidente vascular cerebral ou tromboembolismo. A decisão precisa considerar por que o anticoagulante foi prescrito, o risco de sangramento e quais fatores de queda podem ser corrigidos.
Após bater a cabeça, a pessoa que usa anticoagulante deve receber orientação médica imediata, mesmo quando não há ferimento aparente.
Como preparar uma revisão segura?
Reúna em uma única lista:
- medicamentos de uso contínuo e “se necessário”;
- doses e horários;
- vitaminas, suplementos e fitoterápicos;
- colírios, gotas e medicamentos sem receita;
- mudanças feitas após internações ou consultas recentes;
- quem prescreveu cada item;
- quando ocorreram quedas, tontura, sonolência ou confusão.
Se possível, leve as embalagens e receitas. Não exclua um produto por parecer “natural” ou pouco importante.
A teleconsulta pode ajudar?
Em situações estáveis, a teleconsulta pode ajudar a conferir receitas e embalagens, reconstruir a relação entre sintomas e mudanças de tratamento, identificar duplicidades e organizar um plano de revisão. A participação de um familiar pode ser útil quando existem alterações de memória ou dificuldade para administrar os horários.
Entretanto, algumas situações exigem avaliação presencial. Medir adequadamente a pressão ao levantar, examinar marcha e equilíbrio e investigar alterações neurológicas ou cardíacas pode modificar a conduta.
Quedas repetidas sem explicação, suspeita de desmaio ou dificuldade nova para caminhar não devem ser avaliadas apenas pela lista de medicamentos.
Sinais de alerta
Procure atendimento imediato se a queda estiver associada a:
- batida na cabeça durante uso de anticoagulante;
- perda de consciência, convulsão ou dificuldade para despertar;
- fraqueza de um lado do corpo ou alteração da fala;
- dor no peito, falta de ar ou palpitação persistente;
- dor intensa ou incapacidade de ficar em pé;
- sangramento;
- confusão que começou de forma súbita.
Perguntas frequentes
Devo suspender o calmante depois de uma queda?
Não por conta própria. Calmantes podem contribuir para quedas, mas a interrupção abrupta também pode causar complicações. A indicação, a dose, o tempo de uso e a forma de redução precisam ser avaliados.
Remédio para pressão sempre aumenta o risco de queda?
Não. O risco depende de sintomas, pressão ao levantar, dose, combinações, hidratação e doenças associadas. Tratar hipertensão continua sendo importante. O esquema deve ser ajustado quando provoca hipotensão ou outros efeitos relevantes.
Um medicamento pode começar a causar problema depois de anos?
Sim. Perda de peso, redução da função renal, nova doença, desidratação ou inclusão de outro medicamento podem mudar a resposta do organismo. Por isso, tratamentos antigos também precisam ser revistos periodicamente.
Se a queda foi causada por um remédio, retirá-lo resolve o problema?
Nem sempre. A retirada pode reduzir um fator de risco, mas força, equilíbrio, visão, pressão, ambiente e outras doenças também precisam ser avaliados.
Leia também
- Como investigar e prevenir novos episódios de queda
- Revisão de medicamentos
- Outros conteúdos sobre envelhecimento e saúde
Referências
- Montero-Odasso M, van der Velde N, Martin FC, et al. World guidelines for falls prevention and management for older adults: a global initiative. Age and Ageing. 2022;51(9):afac205.
- Seppala LJ, Petrovic M, Ryg J, et al. STOPPFall: Screening Tool of Older Persons Prescriptions in older adults with high fall risk. Age and Ageing. 2021;50(4):1189-1199.
- Seppala LJ, Wermelink AMAT, de Vries M, et al. Fall-Risk-Increasing Drugs: A Systematic Review and Meta-Analysis: II. Psychotropics. Journal of the American Medical Directors Association. 2018;19(4):371.e11-371.e17.
- Seppala LJ, van de Glind EMM, Daams JG, et al. Fall-Risk-Increasing Drugs: A Systematic Review and Meta-analysis: III. Others. Journal of the American Medical Directors Association. 2018;19(4):372.e1-372.e8.
- Lee J, Negm A, Peters R, Wong EKC, Holbrook A. Deprescribing fall-risk increasing drugs for the prevention of falls and fall-related complications: a systematic review and meta-analysis. BMJ Open. 2021;11:e035978.
- American Geriatrics Society Beers Criteria Update Expert Panel. American Geriatrics Society 2023 updated AGS Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults. Journal of the American Geriatrics Society. 2023;71(7):2052-2081.
Este texto tem finalidade educativa e não substitui avaliação individual. Sintomas e decisões terapêuticas devem ser discutidos com um médico. Em situações de urgência, procure atendimento imediato.